A Transformação
Onésio não saberia definir exatamente o que acontecera com Dirce, sua
esposa. Não era nenhum modelo de virtude. Possuía seus defeitos, como
todo ser humano, mas sempre viveram relativamente bem, juntamente com
os três filhos, até a transformação.
Começara devagarinho, com crises nervosas e impulsos agressivos,
convertendo-se numa pessoa irritadiça, a tumultuar o lar. Ele era o mais
visado. Dirce o assediava com exigências descabidas, criticava-o se não
atendia prontamente seus caprichos, acusava-o de abandono quando, por
força de suas obrigações profissionais, passava alguns dias viajando.
A situação piorara muito com sua conversão ao espiritismo. Alma sensível,
sedenta de conhecimento superior, encontrara na Doutrina um manancial
abençoado que iluminava o cérebro e aquecia o coração.
Contudo, a esposa passou a hostilizá-lo ainda mais. Se a convidava à
oração era recebido com ironia; se calava-se ante sua intemperança verbal
era taxado de indelicado e orgulhoso; se intentava esclarecê-la sobre
princípios espíritas chamava-o de alucinado. Possuída por injustificável
aversão, iniciou uma guerra de nervos para afastá-lo do espiritismo.
Se o marido chegava em casa mais tarde, informava:
- O jantar já foi servido. Você pode jejuar. Faz bem ao espírito, que tanto o
preocupa.
Deixou de cuidar de suas roupas.
- Espírita não precisa andar bem vestido.
Buscava envolvê-lo em conflitos com os filhos.
- Seu pai não liga para nós. Ou está viajando ou enfiado naquele maldito
Centro Espírita.
Amigos ponderavam que Onésio devia agir com firmeza, exigindo o
respeito de que era credor. Ele, porém, estava acima de reações puramente
humanas, consciente de que qualquer violência de sua parte acentuaria o
abismo aberto entre ele e a esposa, culminando com o aniquilamento do lar.
Dirce era muito mais necessitada da ajuda do que de admoestações.
Percebia em seu olhar profunda amargura. Adivinhava incontroláveis
tormentas em seu universo interior. E quanto maiores eram suas
impertinências, mais se compadecia, rogando a Deus que a socorresse.
Em seu favor havia as viagens. Visitava várias cidades. Embora preocupado
com a esposa, saudoso dos filhos, podia, então, fazer o que tanto o
gratificava: participar livremente do movimento espírita.
Era estimado pelos confrades em face da facilidade de expressão em seus
comentários em torno da Doutrina e, sobretudo, pelos generosos dotes de
coração, sempre pronto a participar de iniciativas no campo da
Fraternidade Humana.
Para muitos Onésio era um infeliz, submetido à tirania da esposa.
Na verdade era apenas alguém compenetrado de seus deveres, que não se
limitava a carregar a cruz doméstica com serenidade, achando tempo e
ânimo suficientes para estender elos de simpatia e amizade ao redor de
seus passos.
Certa vez, numa das cidades que visitava, compareceu a reduzido grupo
mediúnico, especializado em tarefas de desobsessão. Dirigindo-se a Onésio,
pelo psicografia mediúnica, um mentor espiritual explicou:
- Meu irmão, há muitos anos quatro espíritos, inimigos seus, desejosos de
se vingarem de passadas ofensas, intentam precipitá-lo no desajuste.
Incapazes de atingi-lo diretamente em face do equilíbrio que o caracteriza,
utilizam sua esposa como instrumento, envolvendo-a em violento processo
obsessivo, a se aproveitarem de suas tendências à neurastenia.
O viajante ouvia surpreso a informação. Ninguém ali sabia de seus
problemas domésticos, o que conferia autenticidade à informação.Há muito
suspeitava que sua esposa estava envolvida em cruel obsessão, mas nem de
leve imaginaria que fosse o alvo dos obsessores.
- Todavia - prosseguiu o manifestante - o seu comportamento disciplinado
os confundia. Quanto maiores as atribulações a que o submetiam, mais
você se ligava a Deus, cultivando a compreensão, sempre pronto a
encontrar na oração forças para enfrentar as tempestades no lar. Sua
humildade, aliada à irresistível vocação para o Bem, muito mais do que
qualquer exortação, abalaram profundamente as disposições dos inimigos
desencarnados, que aqui estão para o acerto final.
Emocionado, Onésio se dirigiu às entidades:
- Meus irmãos, reconheço que bem grande terá sido o mal que lhes causei
no passado para que os animassem propósitos de vingança. Aparente
vítima de hoje, ontem fui o verdugo. Contudo, após muito sofrer, aprendi
que responder ao mal com o mal é perpetuá-lo, e todos sabemos sentir um
dia que o revide pode satisfazer os sentimentos humanos, mas contraria
nossa condição de filhos de Deus. Por isso, os vingadores serão sempre
amargos e infelizes.
Venho, pois, convidá-los à reconciliação, em nome de Jesus. Se muito mal
lhes causei, peço-lhes que me perdoem. Trabalharei intensamente por
repará-lo.
Incapaz de prosseguir, Onésio chorava copiosamente, enquanto o mentor
concluía:
- Suas lágrimas unem-se às de nossos irmãos. Eles prometem que não
voltarão a perturbar seu lar e que buscarão novos caminhos, inspirados
em seus exemplos...
Dois dias depois Dirce recebia o marido com um brilho diferente no olhar:
- Onésio, meu querido! Que saudades!